
Estava tentando ler um livro e nada. Olhou pros lados e nada. Queria companhia? Sim, mas não era isso. Estava inquieta. Entrou na internet . Mil páginas ao mesmo tempo. Trocentas coisas pra ler e nada. Paciência sumiu. Não conseguia ler um parágrafo. Deitou na cama e olhou pro teto, como se esperasse algo acontecer. Até que viu um lobo passando.
Um lobo? Mas como? Ela não tinha seu cachorro, ainda. Tentou ignorar aquilo mas tinha certeza de ter visto um lobo. Rolou mais alguns segundos até assumir que não conseguiria tirar aquele pensamento louco da cabeça. Desistiu e levantou da cama. Atrás do lobo.
A casa estava toda escura, só havendo a luz que entrava pela janela. Não era de noite, mas estava escuro. Por quê? Antes de entender, viu a cauda do animal. Chegou a senti-la entre seus joelhos, mas não pode ver por estar de costas. Virou bruscamente e pensou ter visto a cauda passar pela porta da outra sala, mas não tinha certeza. Andou até lá e qual não foi sua surpresa ao ver um embrulho em cima da mesa.
Um embrulho em azul turquesa. Um embrulho em azul turquesa? Parou com as mãos na cadeira. O que estava acontecendo? Primeiro um lobo, depois uma casa escura, como numa penumbra de inverno que não pertencia a sua cidade. Agora um embrulho azul turquesa? E ainda parecia ser um livro? Isso era o que? Um sonho? Por que tantas coisas que ela queria estavam acontecendo?
Desejou que alguém estivesse ali. O Pedro. Onde ele estava mesmo? Bem que poderia ligar pra ela agora. Acabou de pensar e o telefone tocou. Ok. Isso estava estranho demais. Muito mesmo. Devia ser um sonho. Um sonho bom e estranho. Mais ou menos como o de Alice. Estaria ela no apartamento das Maravilhas?
Tirou o telefone do gancho e, antes de atender, pensou que algo estranho estava pra acontecer. Um estranho ruim. Porque até agora, estava tudo indo bem. Bem demais. Quase teve medo de falar alô. Então falou oi, seu alô mais curto e impessoal. Alô. Oi. Era ela sim. Uma mulher? Secretária? Mais de quem?
Do Pedro. Do Pedro? Mas como assim? O Pedro nem trabalhava, tirando aqueles bicos. Como poderia ter uma secretária? Teria ele finalmente virado aquele ator famoso que sempre quis? Mas era o sonho dela, e ela não queria isso. E desde quando ator tem secretária? Não seria um relações públicas, assessor, algo assim?
Secretária. Do Doutor Pedro. Namorado dela e agora doutor em Psicanálise. Sim, isso mesmo. E devia isso a ela, que depois de tanto falar das teorias freudianas, foi ouvida e fez do namorado outro seguidor de Sigmund. Como ela sempre quis. Alguém pra passar horas teorizando, analisando e depois fazendo sexo. E que reconhecia que ela tinha sido a causa! Mas…
A secretária ligou pra falar do embrulho. Era um presente do Doutor Pedro. Pela briga. Briga? É. Ele pedia desculpa e assumia que estava errado. Pra compensar pela falta de tempo para um perdão ao vivo, um presente. Por favor, que abrisse e dissesse o que achou. Ela transmitiria tudo ao chefe.
Abriu. E não acreditou no que viu. Era um livro. Grosso, de capa dura. De origem francesa, traduzido para o português. E era sobre psicanálise. Mas era o livro errado. Mais errado impossível. Como aquilo estava acontecendo? Como? Só podia ser a coisa estranha do país das Maravilhas.
O Pedro deu a ela aquele livro? O livro vermelho da Psicanálise? Aquele que dizia como ignorar Freud? Como usar a psicanálise sem ele? Não. Não podia ser. Pedro não poderia ter feito isso. Um doutor! Será que havia comprado com pressa, sem ler do que se tratava. Ou será que outra pessoa havia comprado no lugar dele?
A secretária. Aquela secretariazinha havia comprado no lugar do patrão. Tratou de deixar claro o que havia descoberto e qual não foi sua surpresa ao notar que a secretária riu. Riu e disse que era aquilo mesmo. E que se ela contasse ao patrão, sofreria uma punição. Menina má. Menina feia. Mulherzinha chata do chefe. E quem se importava com o presente dela? Melhor, com ela?
Ficar quieta,entendeu? O patrão não podia descobrir que ela havia comprado o livro errado. Assim terminaria o caso entre os dois. Caso? É, caso. E deveria parar de repetir tudo o que ela dizia. Mulher chata. Chata. Cha-ta. Chata chata chata! No caminho! Cortem-lhe a cabeça!
Cortem-lhe a cabeça! Onde já ouvira isso antes?
Abriu os olhos com o estrondo. Logo sentiu a dor. Estava num emaranhado de lençóis e uma meia fugida de um pé. O travesseiro sobre a sua cabeça, metade do short embolado e sentia o frio do chão nas costas. O chão. O armário logo ao lado. Então havia mesmo sonhado?
Ouviu a voz do Pedro na porta:
-Júlia? Que isso? Caiu da cama?