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O começo do fim (I)

 

 

This is the end, my only friend, the end”

 

- O que foi?

-Nada.

- Fala.

-Nada.

-Nada?

-Nada.

- E você acha que eu acredito? Toda vez que uma mulher fala ‘nada’, é  porque deu merda.

-…

- Ok. Nada. Depois não vem reclamar no meu ouvido. Eu não sou telepata, porra.

- Tá.

- …

-…

-…

-Tá puto?

- O que você acha?

-Olha só, eu entendo, mas eu realmente não quero falar.

-  Mas por quê?

-Porque é bobeira minha e vai ficar pior se eu falar.

-Mas o que adianta ficar com essa cara de cu?

- Não dá pra evitar, ué. Deixa quieto.

-Tá bom. Só não quero ninguém reclamando no meu ouvido depois.

-…

-…

-…ok, é sobre o que aconteceu hoje.

- Hm…e o que tem?

-Ah, sei lá. Fiquei pensando na sua ex.

- Puta que pariu… lá vem.

-Tá vendo? É por isso que eu não queria falar.

-Mas não tem nada a ver você falar dela! Mania de trazer problema pra casa…

- Não é  trazer problema. É que quando eu a vi hoje… fiquei pensando que você a amou um dia.

- E daí?

-E daí que comecei a me perguntar se o amor de vocês acabou… se o amor acaba. A gente ama alguém um dia e depois o amor acaba… será que era amor mesmo? Ou era só invenção?

-Eu sei lá.

- … ou será que acabou o amor? Será que ainda não tem alguma coisa aí dentro? Entre vocês?

- Cara… taí o tipo de coisa que eu não entendo. Pra que você me pergunta isso? Daí eu acabo  dando uma resposta que você não quer ouvir e você fica puta, magoada, chora… vocês mulheres pedindo respostas que não queremn ouvir.

-Então você ainda ama, né?

-Não coloca palavra na minha boca, cara.

- Mas é isso. Tá na cara. Eu percebi quando vi vocês. Senti.

- Mas não tem nada a ver.  Não interessa se eu ainda sinto alguma coisa ou não. Pra que mexer no passado? Pra que trazer outro relacionamento pro meio do nosso? E squece isso. Para de querer sofrer.

- Não é querer… Queria eu poder evitar isso. Apagar isso. Apagar o passado.

- Cara, aprende a separar as coisas.

- E você aprende a ser menos grosso, porra. Eu não tô fazendo de propósito, então não vem cheio de lição de moral.

- Mas você não tem nada que ficar pensando nessas coisas, cara. Parece que fica procurando coisa pra se preocupar.

-Eu não procurei nada. E dá próxima vez fico quieta.  Que idiota que eu sou, achando que você poderia entender.

-Ah, e você entende o quê?

- Que nada mais vai ser como antes depois disso.

-Cara, para com essa merda…

Toc  toc toc. O começo do fim chegou.

 

 

 

Estava tentando ler um livro e nada. Olhou pros lados e nada. Queria companhia? Sim, mas não era isso. Estava inquieta. Entrou na internet . Mil páginas ao mesmo tempo. Trocentas coisas pra ler e nada. Paciência sumiu. Não conseguia ler um parágrafo. Deitou na cama e olhou pro teto, como se esperasse algo acontecer. Até que viu um lobo passando.

Um lobo? Mas como? Ela não tinha seu cachorro, ainda. Tentou ignorar aquilo mas tinha certeza de ter visto um lobo. Rolou mais alguns segundos até assumir que não conseguiria tirar aquele pensamento louco da cabeça. Desistiu e levantou da cama. Atrás do lobo.

A casa estava toda escura, só havendo a luz que entrava pela janela. Não era de noite, mas estava escuro. Por quê? Antes de entender, viu a cauda do animal. Chegou a senti-la entre seus joelhos, mas não pode ver por estar de costas. Virou bruscamente e pensou ter visto a cauda passar pela porta da outra sala, mas não tinha certeza.  Andou até lá e qual não foi sua surpresa ao ver um embrulho em cima da mesa.

Um embrulho em azul turquesa. Um embrulho em azul turquesa? Parou com as mãos na cadeira. O que estava acontecendo? Primeiro um lobo, depois uma casa escura, como numa penumbra de inverno que não pertencia a sua cidade. Agora um embrulho azul turquesa? E ainda parecia ser um livro? Isso era o que? Um sonho? Por que tantas coisas que ela queria estavam acontecendo?

Desejou que alguém estivesse ali. O Pedro. Onde ele estava mesmo? Bem que poderia ligar pra ela agora. Acabou de pensar e o telefone tocou. Ok. Isso estava estranho demais. Muito mesmo. Devia ser um sonho. Um sonho bom e estranho. Mais ou menos como o de Alice. Estaria ela no apartamento das Maravilhas?

Tirou o telefone do gancho e, antes de atender, pensou que algo estranho estava pra acontecer. Um estranho ruim. Porque até agora, estava tudo indo bem. Bem demais. Quase teve medo de falar alô. Então falou oi, seu alô mais curto e impessoal. Alô. Oi. Era ela sim. Uma mulher? Secretária? Mais de quem?

Do Pedro. Do Pedro? Mas como assim? O Pedro nem trabalhava, tirando aqueles bicos. Como poderia ter uma secretária? Teria ele finalmente virado aquele ator famoso que sempre quis? Mas era o sonho dela, e ela não queria isso. E desde quando ator tem secretária? Não seria um relações públicas, assessor, algo assim?

Secretária. Do Doutor Pedro. Namorado dela e agora doutor em Psicanálise. Sim, isso mesmo.  E devia isso a ela, que depois de tanto falar das teorias freudianas, foi ouvida e fez do namorado outro seguidor de Sigmund. Como ela sempre quis. Alguém pra passar horas teorizando, analisando e depois fazendo sexo. E que reconhecia que ela tinha sido a causa! Mas…

A secretária ligou pra falar do embrulho. Era um presente do Doutor Pedro.  Pela briga. Briga? É.  Ele pedia desculpa e assumia que estava errado. Pra compensar pela falta de tempo para um perdão ao vivo, um presente. Por favor, que abrisse e dissesse o que achou. Ela transmitiria tudo ao chefe.

Abriu. E não acreditou no que viu. Era um livro. Grosso, de capa dura. De origem francesa, traduzido para o português. E era sobre psicanálise. Mas era o livro errado. Mais errado impossível. Como aquilo estava acontecendo? Como? Só podia ser a coisa estranha do país das Maravilhas.

O Pedro deu a ela aquele livro? O livro vermelho da Psicanálise? Aquele que dizia como ignorar Freud? Como usar a psicanálise sem ele? Não. Não podia ser. Pedro não poderia ter feito isso. Um doutor! Será que havia comprado com pressa, sem ler do que se tratava. Ou será que outra pessoa havia comprado no lugar dele?

A secretária. Aquela secretariazinha havia comprado no lugar do patrão. Tratou de deixar claro o que havia descoberto e qual não foi sua surpresa ao notar que a secretária riu. Riu e disse que era aquilo mesmo. E que se ela contasse ao patrão, sofreria uma punição. Menina má. Menina feia. Mulherzinha chata do chefe. E quem se importava com o presente dela? Melhor, com ela?

Ficar quieta,entendeu?  O patrão não podia descobrir que ela havia comprado o livro errado. Assim terminaria o caso entre os dois. Caso? É, caso. E deveria parar de repetir tudo o que ela dizia. Mulher chata. Chata. Cha-ta. Chata chata chata! No caminho! Cortem-lhe a cabeça!

Cortem-lhe a cabeça! Onde já ouvira isso antes?

Abriu os olhos com o estrondo. Logo sentiu a dor. Estava num emaranhado de lençóis e uma meia fugida de um pé. O travesseiro sobre a sua cabeça, metade do short embolado e sentia o frio do chão nas costas. O chão. O armário logo ao lado. Então havia mesmo sonhado?

Ouviu a voz do Pedro na porta:

-Júlia? Que isso? Caiu da cama?

Beatrice diz:

Oi, Julinha! Tudo bem?

Júlia está digitando…

Bem?Não sei, viu? A verdade é que quero falar tanta coisa… falar que olho pra você e não reconheço quem você é, a amiga que eu já tive…que você pra mim é uma estranha e isso me deixa muito triste. Você não mais a mesma e a minha vontade é de jogar tudo isso na sua…

Júlia diz:

Sim. E você?

Ser neurótico é…

- Hmmmm… alô?

-Júlia? Júlia, é você?

-Quem é?

-É a Beatrice, Júlia! Você tá bem? O que houve? Fala!

- O quê?

- Ai, Júlia. Não precisa me preparar. Fala logo!

- Mas o que foi que…

-Você tá em perigo? É isso? Fala rápido então?

-Beatrice, do que você tá falando?

- Você me ligou as 3 da manhã duas vezes e eu só vi agora e achei que algo tivesse acontecido porque sempre que alguém liga de madrugada é algo ruim tipo morte, acidente, sei lá, e aí eu vi as ligações e pensei que era algo muito grave porque você quase não me liga que dirá de madrugada e como vivemos num mundo a cada dia mas violento eu achei que você tava sendo sequestrada ou que tava no hospital e…

-Beatrice, cala a boca! Eu não liguei pra você!

-Como não ? Tem aqui duas chamadas não atendidas, uma as 3:21 e outras as 3:25 da madrugada! É por isso que eu deixo o meu telefone sempre ligado porque sempre estamos sujeitos a imprevistos e tô sempre com medo que algo ruim aconteça com…

-Shhh! Para de falar! Olha só, eu tava dormindo. O celular tá aqui comigo na cama e eu devo ter rolado em cima dele e ligado pra você sem querer, entendeu? Eu estou em casa, dormindo. O Pedro tá aqui do lado roncando, não tá ouvindo?

- Mas… como é que você deixa algo assim acontecer? Eu poderia ter morrido do coração de tanta preocupação achando que você tinha sido assaltada ou que o Pedro tivesse feito algo, sei lá, te espancado e…

-Tá maluca? O Pedro não mata nem barata.

- Ei, o que é ,hein?

-Ai, Pedro, desculpa. É a Beatrice aqui no telefone dando uma de louca e achando que tô ligando pra ela do além depois de morrer esquartejada porque liguei pra ela sem querer de madrugada.

-Ah, cara, manda ela calar a boca e desliga isso. Estamos dormindo!

-Eu sei, mas ela não cala a boca!

- O que você estão falando aí? E de quem é essa voz grogue? É do Pedro? Ele tá passando mal?

-Cara, começa a falar pra ela sobre uma de suas teorias que ela desliga.

-Ok. Oi, Beatrice? Então, essa sua reação é uma típica reação neurótica onde, segundo Freud…

- Ah, então vocês estão bem, né? Até mais! Tchau! Tu tu tu…

- Nossa, funcionou mesmo. Mas por que será?

- Júlia, foco. Cama. Volta a sonhar com o Freud, volta. Boa noite.

- Eu, hein…

Especial

 

 

Chegou em casa sorrindo como uma criança. Abriu a porta, tirou as sapatilhas e foi seguindo lentamente até o seu mais novo canto. Abriu a porta e logo sentiu que era aquilo mesmo. Só faltava agora mudar a cama para o outro quarto e botar ali um sofá enorme, preto, como o que o seu pai tinha na sua época de pai-solteiro-perdido. Os que viam podiam até achar brega, mas ela cresceu com aquilo e aprendeu a amá-lo, juntamente com o grande retrato do ator famoso em seu quarto, posto por uma fã bobona, sua mãe. Se parece pra pensar mais nisso, teria a vontade de fazer uma camisa com a caricatura de Freud, quem mais?, dizendo: It´s not about love . It´s all about parents!

Ligou o ar condicionado, fechou as portas que davam pra varanda e a cortina, deixou o ambiente bem escuro e assim se jogou na cama-no-lugar-errado. Não via a hora de ser um sofá, talvez até um sofá-cama, mas por ora, dava pra agüentar. Não lhe importava o fato de que aquele era o melhor quarto da casa e estava prestes a não ser mais o seu. Ou melhor, onde ela dormiria.

Com risinhos de quem anda fazendo travessuras, colocou o DVD pra rodar: veria A dama do lago. Sem nenhum remorso por ter faltado aula, fingindo passar mal, deu início aos trabalhos. Como ser do resto do mundo quando podia  ficar ali? O frio a inundou e assim mergulhou de cabeça, moletom e pantufas na sua sessão de cinema. Valerá a pena comprar aquela televisão gigantesca.

Com vinte minutos de mergulho na neve, quer dizer, de filme, alguém abriu bruscamente a porta:

-O que você está fazendo em casa, Júlia?

-Viajando.

-Vendo filme?

-Viajando.

- O que é isso?

-O Dia feliz da Júlia.

-Ah, tá. Você faltou aula, né?

- Shhh.

- Ok, ok. Tô indo pro teatro, tá?

-Uhum.

- Até mais tarde.

-Beijo. Não esquece de apagar a luz.

-Você não tá com frio não?

-Tô.

- Por que não abaixa o ar?

-Peeedroooo!

-Ok. Saindo.

- Tchau.

A porta é fechada, pra ser aberta vinte segundos depois:

-Vem cá, algum dia você vai me deixar  ver  filme aí?

-Talvez.

-Ok.

-Ok.

Porta fechada. Era de novo o Dia feliz da Júlia. Por um momento se sentiu mal por não compartilhá-lo com o Pedro, até lembrar que ensinara ao namorado como ter os dele. Quem sabe mais tarde os dois comemorariam isso.

 

De volta ao mergulho.

 

( Para Nathália. Conhecem?)

 

 

-Pedro! Não acredito que você tá aqui. Não saiu o carnaval todo pra ir em bloco na quarta-feira de cinza.

-Pois é

-Como você conseguiu convencer a mala da Júlia ?

- Ah, dei uma chantageada.

- O quê? Que isso, cara! Tá certo que a Júlia é um saco e merece, mas chantagem? Isso é coisa de mulher!

-É, mas um homem tem que fazer o que um homem tem que fazer… que merda. Essa frase só funciona em inglês.

-Tá, sua bichona. Diz então o que você fez pra trazer sua machona pra rua? Greve de sexo ? Tortura com futebol? Citou Hamlet  o carnaval todo?

-Não. Simplesmente mostrava pra ela a foto do garotinho chorando toda hora e quando ela já  estava chorando junto, não deixava mais ela ver. E também não dizia pra ela que ficou tudo bem depois.

-Nossa, cara… você é  cruel. E cadê ela?

-Ah, tá sentada na calçada ali atrás. Provavelmente se distraindo ao pensar as explicações freudianas pra cada fantasia que vê.Ou tentando imaginar um mundo feliz pro garotinho.

- Puts… vamos beber.

Como não chorar junto?

ps: Antes que rolem protestos – o preconceituoso é a personagem, ok? Não a autora. Esta possui preconceitos diferentes.

Dia Internacional da…

 

- Pô, Pedro.

-Que foi?

- Você nem me deu parabéns pelo Dia Internacional da Mulher.

- Mas você nunca gostou disso. Ano retrasado fez todo um discurso sobre como isso é ridículo e hipócrita e ano passado ainda mandou um ” Ah, pe hoje é? Hm”

-E você por acaso é mulher pra ficar lembrando desses detalhes?

- Ah, vai pra p…

-Que isso? Tá me tratando assim no meu dia? Quem tem um namorado assim não precisa de inimigo.

-Ih, rapá… você resolveu virar mulherzinha hoje só porque hoje é dia da Mulher? Cadê minha Júlia macho que não liga pra nada, me trata como se eu fosse a mulher da relação e só não coça saco porque não tem?

-MAS QUE ABSURDO! Eu nunca coçaria o saco como vocês. E eu sou mulher, ok? Finjo que não, disfarço, critico, mas sou. E hoje eu queria um parabéns e um buquê de… de… de violetas.

-Júlia, não tem buquê de violetas.

-E como você sabe disso?

- Porque me contaram quando eu fiz aqueles bicos de garçom em festas, lembra? Só tem aqueles arranjos bregas de festa. Buquê é de rosa, de lírio e de… bom, só sei essas.

- Ah, Pedro. Some daqui. Não quero mais te ver. Tchau.

-Ok.

-Ok.

-…

-…

-… Júlia?

- QUE É?

- Parabéns pelo seu dia, tá? Amanhã te dou um presente.

-Tá… obrigada.

-Nada.

-…

-…

-… Pedro, tirando o fato de que isso tudo não teve o brilho do inesperado porque eu tive que fazer você se tocar e me dar os parabéns… dorme aqui comigo hoje?

-…tá, Júlia.

 

Porque independente das diferenças , todas nós somos mulheres e merecemos um agrado de vez em quando. E por que não um dia nosso?

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