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Salvar o mundo? Aham, tá bom

– Se vocês pudessem ter super poderes, qual vocês escolheriam?

-Um só?

– É.

-Bem… Acho que eu escolheria… Voar.

– Voar?

-É.

-Mas esse é tão óbvio…

-Ué, mas é o que eu queria. Sempre tive esse fascínio em voar, desde pequena. Acho que deve ser a coisa mais libertadora do mundo. Voar de avião acho um saco, mas voar por conta própria? Deve ser lindo.

– Ah, que decepção.

-Por quê?

– Sei lá… Achei que você, toda metida a saber de tudo e a entender de Freud ia querer um poder mais… Mais…

– Mais o quê?

-Ah… Megalomaníaco. Ao estilo Pink e o Cérebro.

– Ih, Beatrice, você não sabia? A Júlia parece cult mas na verdade é uma criança. Um clichê ambulante.

– Né? Voar… Que poder mais fútil!

-Ah, é? Então que poder você escolheria, Beatrice? Algo pra acabar com a fome do pobres?  Proporcionar a paz mundial?

– Ah… Acho que eu ia querer… Me teletransportar.

– Ah, esse é legal.

– É, Pedro. Super legal. Tão menos fútil que o meu… afinal, o que tem de altruísta em querer fugir de engarrafamentos, certo?

– Mas eu não quero por causa disso!

-Aham, tá bom. E eu sou o Bozo. O Bozo Voador.

– Escuta aqui, Júlia…

– Ei, ei ,ei. Chega de briga. Se for pra brigar que seja com as duas de calcinha e blusa molhada.

– Ai, seu idiota!

– Ah, é? Pois então, Pedro… Você que me desvendou muito bem , que sabe tudo e de futilidade não tem nem um pentelho, qual seria o seu?

-Ah, eu quero poder dominar mentes.

-Hm…

– Pô, esse é bom. Inteligente. Você poderia dominar o mundo. Fazer com que houvesse guerras a seu favor, que todos concordassem com você e…

– E quer apostar quanto que a primeira coisa que esse meu belo namorado faria seria algo como convencer todas as mulher do mundo a darem pra ele?

– Ah, claro que não!

– Não, Pedro? Não? Tem certeza?

– Não… Quer dizer, bem… Não todas as mulheres. Só as mais gostos… Ai, ai, que isso? Parem de bater! Tão loucas?

– Não. Só treinando o nosso super poder de acabar com idiotas. Só tá faltando aqueles barulinhos…

POW! CLACK! BOOM!

Explicar pra quê?

–  Eu não entendo… Eu realmente não entendo.

– O quê?

-O cara… Os homens.

-Ah… Novidade.

– Me apresentaram a esse cara e ele veio cheio de coisa. Na primeira semana me chamou pra sair e tal. Era um fofo. Só que acabamos nos desencontrando e não rolou de sair. No dia seguinte a suposta saída ele já era outro. Até chegou a comentar de alguma outra coisa mas já tinhamudado. Antes nos falávamos o tempo todo e de todas as formas possíveis. Um agradando o outro, sabe?  E depois da não-saída, ele nem fala comigo!

– Ué, ele deve ter ficado chateado com o teu bolo.

– Mas não foi bolo! Foi falta de comunicação mesmo. Sabe aquele dia em que tudo dá errado? Meu celular acabou a bateria na hora que ele ligou pra mim. Quando consegui um telefone, o dele ficou fora de área. Ele me chamou pra ir em bar mas não me falou o endereço direito… Tudo errado.

– Sei.

-Então… E  eu mostrei que queria. O pessoal que nos apresentou até ficou brincando, sabe. Dizendo que éramos muito casalzinho. Ele ria, eu também… E de repente, ele mudou.

– Hm…

– … ai, mas como isso me irrita! Odeio gente que muda comigo do nada. Pelo menos dá uma justificativa, pô!

-É chato mesmo.

– … e o que você acha? Ainda acha que ele ficou chateado? Por que eu não vejo motivo.

-Bom…

– Será que ele tá querendo que eu faça alguma coisa? Mas e se eu fizer e ele me der um fora? Ai, não nasci pra isso. Por que homem não vem com plaquinhas? Daquelas tipo “ te como hoje, amanhã e depois”, “ não te ligo amanhã mas hoje faço um estrago”, “ só quero amizade e sexo”,  “ não te quero nem fudendo” ou “ queria te pegar ontem mas tava com problemas mentais”. Seria muito mais fácil!

– E impossível, né? Pelo amor, Beatrice! Essas suas plaquinhas são muito femininas. Homem não dá tanta explicação assim.

– Ah, mas deveriam!

– Deveriam sim. E também deveriam ser todos lindos, ricos, apaixonados por nós, honestos, bem dotados…

– Tá, ok. Já entendi.  Mas pelo menos podia dar uma explicação, né? Nem que fosse uma pequena.

-Bom… eu posso te dar a explicação que o Pedro daria. Quer ouvir?

– Tá, fala. Qualquer coisa tá valendo.

-Acho que ele diria mais ou menos assim: “Cara, as pessoas são estranhas. E fazem merda”.

-…

DR versão masculina

 

– Pedro, o que você tá fazendo aí parado e fazendo esses gestos?

-Nada.

– Como nada? Tá gesticulando que nem um louco aí. Tá ensaiando?

-É…

-Pedrooo… fala logo o que você tá fazendo.

-Ensaiando.

-Eu tenho cara de idiota? Não responde e conta logo o que você tá fazendo aí.

– Puta merda. Você mulheres são…

-Lindas. Agora conta logo.

-Eu tô… brigando mentalmente com a Júlia.

– Hã?

– Você ouviu.

-Ouvi… mas… como é isso?

– Ah, você nunca fez isso. Ensaiou toda uma discussão, o que você falaria e tal?

– Eu não…

-…

-Ok, eu já fiz sim. Mas é que… sei lá. Você sempre faz isso?

– Eu tenho feito de uns tempos pra cá. Porque sabe como é… não dá pra discutir com vocês mulheres. Primeiro porque vocês falam muito rápido e nos acusam de tudo. Daí eu começo a tentar entender o porquê de estar levando esporro, porque eu nunca entendo, e aí quando vejo, estou sendo acusado de tanta coisa ao mesmo tempo que me irrito. Daí falo uma merdas e vocês choram.

– Você tá me dizendo que a Júlia chora?

– Ah, ok… a Júlia não chora. Mas ela me olha com aquela cara que diz “ greve de sexo, seu filho da puta”e me ignora até… sei lá, até eu quase chorar.

-Hahaha, é bem a Júlia isso.

– E sem contar que muitas vezes eu nem consigo falar muito, porque ela vem com aquelas teorias freudianas que nem o próprio Freud entenderia numa DR e eu já nem sei mais do que estamos falando.

– Nossa… que medo.

-Pois é. Aí eu acabo ficando mudo e ela termina a briga com aquela cara de vitoriosa, como se estivesse certa.

-Ah, mas aposto que ela está sempre certa.

-Claro que não. Eu normalmente não consigo nem entender o porquê do esporro.

– Ai, homens…

– Homens nada. Vocês que são umas malucas briguentas.

-Olha só, garoto…

– Bom, mas voltando ao assunto. Daí eu ensaio. Na minha cabeça eu falo tudo de forma coerente e provo por mais A mais B que ela é a errada. Sem Freud, sem greve de sexo…

– E aposto que nessa fantasia a Júlia chora no final, né?

-Bem… er… cada um com suas fantasias, né? Ela chora, depois me abraça, implora por perdão, diz que vai fazer tudo o que eu quiser. Daí eu peço pa ela vestir aquela roupa de…

– Ok, Pedro. Você precisa ensaiar mentalmente a hora de parar também. Tá precisando.

O começo do fim (I)

 

 

This is the end, my only friend, the end”

 

– O que foi?

-Nada.

– Fala.

-Nada.

-Nada?

-Nada.

– E você acha que eu acredito? Toda vez que uma mulher fala ‘nada’, é  porque deu merda.

-…

– Ok. Nada. Depois não vem reclamar no meu ouvido. Eu não sou telepata, porra.

– Tá.

– …

-…

-…

-Tá puto?

– O que você acha?

-Olha só, eu entendo, mas eu realmente não quero falar.

–  Mas por quê?

-Porque é bobeira minha e vai ficar pior se eu falar.

-Mas o que adianta ficar com essa cara de cu?

– Não dá pra evitar, ué. Deixa quieto.

-Tá bom. Só não quero ninguém reclamando no meu ouvido depois.

-…

-…

-…ok, é sobre o que aconteceu hoje.

– Hm…e o que tem?

-Ah, sei lá. Fiquei pensando na sua ex.

– Puta que pariu… lá vem.

-Tá vendo? É por isso que eu não queria falar.

-Mas não tem nada a ver você falar dela! Mania de trazer problema pra casa…

– Não é  trazer problema. É que quando eu a vi hoje… fiquei pensando que você a amou um dia.

– E daí?

-E daí que comecei a me perguntar se o amor de vocês acabou… se o amor acaba. A gente ama alguém um dia e depois o amor acaba… será que era amor mesmo? Ou era só invenção?

-Eu sei lá.

– … ou será que acabou o amor? Será que ainda não tem alguma coisa aí dentro? Entre vocês?

– Cara… taí o tipo de coisa que eu não entendo. Pra que você me pergunta isso? Daí eu acabo  dando uma resposta que você não quer ouvir e você fica puta, magoada, chora… vocês mulheres pedindo respostas que não queremn ouvir.

-Então você ainda ama, né?

-Não coloca palavra na minha boca, cara.

– Mas é isso. Tá na cara. Eu percebi quando vi vocês. Senti.

– Mas não tem nada a ver.  Não interessa se eu ainda sinto alguma coisa ou não. Pra que mexer no passado? Pra que trazer outro relacionamento pro meio do nosso? E squece isso. Para de querer sofrer.

– Não é querer… Queria eu poder evitar isso. Apagar isso. Apagar o passado.

– Cara, aprende a separar as coisas.

– E você aprende a ser menos grosso, porra. Eu não tô fazendo de propósito, então não vem cheio de lição de moral.

– Mas você não tem nada que ficar pensando nessas coisas, cara. Parece que fica procurando coisa pra se preocupar.

-Eu não procurei nada. E dá próxima vez fico quieta.  Que idiota que eu sou, achando que você poderia entender.

-Ah, e você entende o quê?

– Que nada mais vai ser como antes depois disso.

-Cara, para com essa merda…

Toc  toc toc. O começo do fim chegou.

 

 

 

Estava tentando ler um livro e nada. Olhou pros lados e nada. Queria companhia? Sim, mas não era isso. Estava inquieta. Entrou na internet . Mil páginas ao mesmo tempo. Trocentas coisas pra ler e nada. Paciência sumiu. Não conseguia ler um parágrafo. Deitou na cama e olhou pro teto, como se esperasse algo acontecer. Até que viu um lobo passando.

Um lobo? Mas como? Ela não tinha seu cachorro, ainda. Tentou ignorar aquilo mas tinha certeza de ter visto um lobo. Rolou mais alguns segundos até assumir que não conseguiria tirar aquele pensamento louco da cabeça. Desistiu e levantou da cama. Atrás do lobo.

A casa estava toda escura, só havendo a luz que entrava pela janela. Não era de noite, mas estava escuro. Por quê? Antes de entender, viu a cauda do animal. Chegou a senti-la entre seus joelhos, mas não pode ver por estar de costas. Virou bruscamente e pensou ter visto a cauda passar pela porta da outra sala, mas não tinha certeza.  Andou até lá e qual não foi sua surpresa ao ver um embrulho em cima da mesa.

Um embrulho em azul turquesa. Um embrulho em azul turquesa? Parou com as mãos na cadeira. O que estava acontecendo? Primeiro um lobo, depois uma casa escura, como numa penumbra de inverno que não pertencia a sua cidade. Agora um embrulho azul turquesa? E ainda parecia ser um livro? Isso era o que? Um sonho? Por que tantas coisas que ela queria estavam acontecendo?

Desejou que alguém estivesse ali. O Pedro. Onde ele estava mesmo? Bem que poderia ligar pra ela agora. Acabou de pensar e o telefone tocou. Ok. Isso estava estranho demais. Muito mesmo. Devia ser um sonho. Um sonho bom e estranho. Mais ou menos como o de Alice. Estaria ela no apartamento das Maravilhas?

Tirou o telefone do gancho e, antes de atender, pensou que algo estranho estava pra acontecer. Um estranho ruim. Porque até agora, estava tudo indo bem. Bem demais. Quase teve medo de falar alô. Então falou oi, seu alô mais curto e impessoal. Alô. Oi. Era ela sim. Uma mulher? Secretária? Mais de quem?

Do Pedro. Do Pedro? Mas como assim? O Pedro nem trabalhava, tirando aqueles bicos. Como poderia ter uma secretária? Teria ele finalmente virado aquele ator famoso que sempre quis? Mas era o sonho dela, e ela não queria isso. E desde quando ator tem secretária? Não seria um relações públicas, assessor, algo assim?

Secretária. Do Doutor Pedro. Namorado dela e agora doutor em Psicanálise. Sim, isso mesmo.  E devia isso a ela, que depois de tanto falar das teorias freudianas, foi ouvida e fez do namorado outro seguidor de Sigmund. Como ela sempre quis. Alguém pra passar horas teorizando, analisando e depois fazendo sexo. E que reconhecia que ela tinha sido a causa! Mas…

A secretária ligou pra falar do embrulho. Era um presente do Doutor Pedro.  Pela briga. Briga? É.  Ele pedia desculpa e assumia que estava errado. Pra compensar pela falta de tempo para um perdão ao vivo, um presente. Por favor, que abrisse e dissesse o que achou. Ela transmitiria tudo ao chefe.

Abriu. E não acreditou no que viu. Era um livro. Grosso, de capa dura. De origem francesa, traduzido para o português. E era sobre psicanálise. Mas era o livro errado. Mais errado impossível. Como aquilo estava acontecendo? Como? Só podia ser a coisa estranha do país das Maravilhas.

O Pedro deu a ela aquele livro? O livro vermelho da Psicanálise? Aquele que dizia como ignorar Freud? Como usar a psicanálise sem ele? Não. Não podia ser. Pedro não poderia ter feito isso. Um doutor! Será que havia comprado com pressa, sem ler do que se tratava. Ou será que outra pessoa havia comprado no lugar dele?

A secretária. Aquela secretariazinha havia comprado no lugar do patrão. Tratou de deixar claro o que havia descoberto e qual não foi sua surpresa ao notar que a secretária riu. Riu e disse que era aquilo mesmo. E que se ela contasse ao patrão, sofreria uma punição. Menina má. Menina feia. Mulherzinha chata do chefe. E quem se importava com o presente dela? Melhor, com ela?

Ficar quieta,entendeu?  O patrão não podia descobrir que ela havia comprado o livro errado. Assim terminaria o caso entre os dois. Caso? É, caso. E deveria parar de repetir tudo o que ela dizia. Mulher chata. Chata. Cha-ta. Chata chata chata! No caminho! Cortem-lhe a cabeça!

Cortem-lhe a cabeça! Onde já ouvira isso antes?

Abriu os olhos com o estrondo. Logo sentiu a dor. Estava num emaranhado de lençóis e uma meia fugida de um pé. O travesseiro sobre a sua cabeça, metade do short embolado e sentia o frio do chão nas costas. O chão. O armário logo ao lado. Então havia mesmo sonhado?

Ouviu a voz do Pedro na porta:

-Júlia? Que isso? Caiu da cama?

Beatrice diz:

Oi, Julinha! Tudo bem?

Júlia está digitando…

Bem?Não sei, viu? A verdade é que quero falar tanta coisa… falar que olho pra você e não reconheço quem você é, a amiga que eu já tive…que você pra mim é uma estranha e isso me deixa muito triste. Você não mais a mesma e a minha vontade é de jogar tudo isso na sua…

Júlia diz:

Sim. E você?

Ser neurótico é…

– Hmmmm… alô?

Júlia? Júlia, é você?

-Quem é?

É a Beatrice, Júlia! Você tá bem? O que houve? Fala!

– O quê?

Ai, Júlia. Não precisa me preparar. Fala logo!

– Mas o que foi que…

Você tá em perigo? É isso? Fala rápido então?

-Beatrice, do que você tá falando?

Você me ligou as 3 da manhã duas vezes e eu só vi agora e achei que algo tivesse acontecido porque sempre que alguém liga de madrugada é algo ruim tipo morte, acidente, sei lá, e aí eu vi as ligações e pensei que era algo muito grave porque você quase não me liga que dirá de madrugada e como vivemos num mundo a cada dia mas violento eu achei que você tava sendo sequestrada ou que tava no hospital e…

-Beatrice, cala a boca! Eu não liguei pra você!

Como não ? Tem aqui duas chamadas não atendidas, uma as 3:21 e outras as 3:25 da madrugada! É por isso que eu deixo o meu telefone sempre ligado porque sempre estamos sujeitos a imprevistos e tô sempre com medo que algo ruim aconteça com…

-Shhh! Para de falar! Olha só, eu tava dormindo. O celular tá aqui comigo na cama e eu devo ter rolado em cima dele e ligado pra você sem querer, entendeu? Eu estou em casa, dormindo. O Pedro tá aqui do lado roncando, não tá ouvindo?

Mas… como é que você deixa algo assim acontecer? Eu poderia ter morrido do coração de tanta preocupação achando que você tinha sido assaltada ou que o Pedro tivesse feito algo, sei lá, te espancado e…

-Tá maluca? O Pedro não mata nem barata.

– Ei, o que é ,hein?

-Ai, Pedro, desculpa. É a Beatrice aqui no telefone dando uma de louca e achando que tô ligando pra ela do além depois de morrer esquartejada porque liguei pra ela sem querer de madrugada.

-Ah, cara, manda ela calar a boca e desliga isso. Estamos dormindo!

-Eu sei, mas ela não cala a boca!

O que você estão falando aí? E de quem é essa voz grogue? É do Pedro? Ele tá passando mal?

-Cara, começa a falar pra ela sobre uma de suas teorias que ela desliga.

-Ok. Oi, Beatrice? Então, essa sua reação é uma típica reação neurótica onde, segundo Freud…

Ah, então vocês estão bem, né? Até mais! Tchau! Tu tu tu…

– Nossa, funcionou mesmo. Mas por que será?

– Júlia, foco. Cama. Volta a sonhar com o Freud, volta. Boa noite.

– Eu, hein…